segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O amor no éter



Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos
mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Adélia Prado




domingo, 5 de dezembro de 2010

entranhas estranhas


Não diga de mim, louca.
Mesmo com a voz, em momentos, 
rouca...
resquícios do tempo,
sequelas de um vício.
Não diga de mim, dor.
Não conjugue verbos
a esmo,
nem brinque 
de amor.
Nas entranhas,
por mais que estranhas,
sou flor.

foto: Ugo Perissinotto

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

insanidade


Enquanto há luz
ao fundo
a mente insana
se funde,
se consome,
se dissipa.
No caminho
árduo,
arcos
calam
  marcas.
O corpo sente
o ter
no vazio.
A sede arde,
o desejo queima.
A mente
insana
se confunde...
é a luz.

foto minha: arcos em Treviso